terça-feira, 26 de abril de 2011

Scream 4 Me


     Em uma época em que a criatividade se tornou artigo de luxo em Hollywood fazendo com que reboots, adaptações de quadrinhos, remakes e sequências tardias de sucessos oitentistas saturem o mercado é louvável que uma obra, nesse caso o quarto filme de uma série , consiga dialogar com a geração de adolescentes da nova década sem perder os elementos que consagraram seus antecessores na segunda metade da década dos anos 90 e esse é o caso do filme Pânico 4 (Scream 4, 2011). Dirigido por Wes Craven e com roteiro de Kevin Willianson o primeiro filme, de 1996, foi um sopro de vida para um gênero que estava desgastado e gerou-além de continuações- várias imitações e até uma boa paródia chamada Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2000). 


     Notória por sua metalinguagem que brinca com os clichês do gênero de terror ( criticar um personagem que corre escada acima ao invés de sair pela porta da frente e minutos depois fazer o mesmo, somente para citar um exemplo) e uma competente construção do suspense a série Pânico fez sucesso por ser uma alternativa permeada de originalidade e citações pop.

  
     No quarto filme Sydney Precott (Neve Campbell) volta para Woodsboro para encerrar a turnê de divulgação de seu livro de auto-ajuda e reencontra os amigos-agora casados- Dewey (David Arquette) e Gale ( Courtney Cox). Para o azar da bela heroína Ghostface também está de volta para celebrar o aniversário do massacre ocorrido no primeiro filme e com o início de um novo morticínio de adolescentes (as cenas iniciais são fantásticas) Sydney novamente se vê ameaçada e recebe dos jovens da pequena cidade a alcunha de Anjo da Morte.


      O roteiro, além de homenagear os filmes anteriores e utilizar as já citadas referências à cultura pop ( sim, eles tem cacife pra dizer que Jogos Mortais é ruim)  , possuí piadas excelentes que fluem em diálogos bem escritos e equilibra isso com as cenas de terror bem executadas por Wes Craven. O elenco todo está  bem mas é claro que o elenco original se sobressai e os novos atores não demonstram as qualidades necessárias para segurar um filme sozinhos-ou iniciar uma nova trilogia como dizem alguns rumores- mas isso não compromete o resultado final.


    Enfim Pânico 4 introduz a franquia no século XXI e para isso nada mais normal que inserir na história elementos tecnológicos indispensáveis para os jovens de hoje e que estão em forte sintonia com as motivações do assassino(?). Desde já um dos melhores e mais divertidos filmes do ano por assustar o espectador e saber conscientemente rir de si mesmo.




segunda-feira, 25 de abril de 2011

Obras-Primas Perdidas...Descontrole

     Exibido pela TV Bandeirantes entre os anos de 2002 e 2003 Descontrole, apresentado por Marcos Mion, foi um dos programas mais criativos e inteligentes da televisão brasileira na última década. Com um formato diferenciado do padrão nacional de programas de auditório Descontrole utilizava metalinguagem para fazer uma crítica ácida e ao mesmo tempo burlesca da má qualidade vigente na tv aberta brasileira. 
     Oriundo da MTV o filósofo e ator Marcos Mion levou para a Bandeirantes atrações que já eram consagradas em seu canal anterior-como fazer imitações de videoclipes e mostrar os "tropeços" não só em videoclipes mas também na programação da própria Band- e acrescentou quadros como Guerrilhas Urbanas e diversas farsas ( a mulher burra e gostosa necessária em debates, o teste de fidelidade onde a platéia zombava de potencial namorado traído somente para citar alguns exemplos) que visavam mostrar o quão ilusório os programas de TV podem ser. Outro fator de destaque eram as engraçadas e interessantes entrevistas. A equipe de Mion era composta por tipos extremamente engraçados; como Cidão, Corvo, Dragon, Black Ninja, Anão etc; e que contribuíam para deixar tudo mais "tosco".

     Infelizmente o programa Descontrole não foi bem aceito pelo público e pela crítica que não entenderam que se tratava de algo revolucionário e inovador. Menosprezado e em busca de audiência o programa se tornou Sobcontrole que era basicamante apoiado no carisma do apresentador e na clássica e chata gincana entre colégios que não eram suficientes para manter o interesse. A supracitada mudança visava transformar o programa em algo mais palatável ao grande público que era acostumado a programas sem graça e com fórmulas tão antigas quanto a própria TV e por isso eram raros os momentos inspirados.
     Descontrole tentou ensinar os jovens a desenvolverem senso crítico, divertiu e fez pensar além de influenciar programas que vieram depois como por exemplo o Pânico na TV! ( que inclusive importou produtores da atração comanada por Marcos Mion) mas infelizmente foi ignorado e por isso merece figurar entre as obras-primas perdidas. 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Ali


     Se "Quando Éramos Reis" é um documentário sobre a luta histórica de Muhammad Ali  contra George Foreman no Zaire em 1974, o filme Ali de Michael Mann complementa este relato sobre o ídolo do boxe de uma maneira que abrange aspectos apenas mencionados no supracitado documentário. O filme de 2001 é uma biografia parcial do controverso lutador e relata os acontecimentos mais relevantes de sua vida entre os anos de 1964 e 1974. A obra mostra em detalhes a conquista do título mundial aos 22 anos; a mudança de nome, sua relação com o islamismo e com o ativista Malcolm X; a perseguição sofrida quando se negou a servir o exército na Guerra do Vietnã e perdeu o título; suas relações com as mulheres, amigos, equipe e família; seu declínio (acentuado com a derrota para Joe Frazier) e sua volta por cima ao vencer Foreman.
     Um dos méritos do filme é mostrar todo o carisma do lutador, falastrão e engraçado Ali ridicularizava os adversários mas essa postura arrogante fazia parte de sua imposição perante uma sociedade desigual. A interpretação de Will Smith é soberba mostrando que o ator tem talento ( quando não está preocupado em ser uma caricatura de um homem negro e fazer pose para a câmera) e sua composição do personagem engloba todos os trejeitos de Ali, seu jeito de falar, o modo de golpear e Smith "desaparece" no personagem. Qualquer cineasta que não se apegue a didatismos merece crédito e nesse filme Mann deixa por conta do espectador interpretar à sua maneira os sentimentos de Ali sobretudo quando ele se relaciona com a população do Zaire em uma belíssima cena onde o lutador vê desenhos reveladores paredes das casas pobres do país africano. Outro destaque são as bem filmadas cenas de luta onde a câmera acompanha a perspectiva dos lutadores quando golpeiam ou são golpeados e a cena em câmera lenta do nocaute de Foreman é espetacular.
     Dotado de um bom roteiro e excelentes aspectos técnicos Ali nos ajuda a compreender melhor um homem que sempre lutou por tudo em que acreditava, que continua lutando contra o mal de Parkinson e tem um vasto e belo legado que não deve ser ignorado pelas novas gerações.  

Elefante


     No dia 20 de abril de 1999 o Instituto Columbine, localizado no condado de Jefferson no estado do Colorado, foi o palco de um massacre que chocou todos os EUA e também o mundo. Eric Harris e Dylan Klebold entraram atirando na escola e assassinaram 13 pessoas, feriram 21 e se suicidaram findo seu brutal (mas nas mentes desses garotos redentor) rompante de truculência. No ano de 2003 o cineasta Gus Van Sant utilizou a tragédia  não apenas para relatar o quão perdidos estavam aqueles garotos, que tiveram uma atitude drástica em relação aos anos de humilhações que sofreram na escola, mas também para retratar a juventude sem perspectivas do final do século passado e início desse século.
     Elefante (Elephant, 2003) é inspirado no fatídico episódio de 20 de abril de 1999 e pelo ponto de vista de diversos estudantes-John, Elias, Michelle, Nathan,Brittany, Jordan e Nicole- acompanhamos o cotidiano de uma escola onde anorexia, alcoolismo, humilhação, esperanças e sonhos desfeitos são recorrentes nas vidas desses jovens cujas idade variam entre 16 e 18 anos. Os caminhos que se cruzam em corredores imensos e a frieza dos adultos indiferentes às necessidades e dificuldades dos alunos tecem um triste painel que ganha contornos ainda mais dramáticos quando os atiradores iniciam seu plano de ataque. O realismo do tiroteio é acentuado pela falta de música e pelos estampidos secos dos tiros que aos poucos começam a dizimar alunos e professores e conseqüentemente gerar pânico. 
     Gus Van Sant, que também escreveu o roteiro,utiliza a câmera para acompanhar os personagens de perto e com isso faz com que a imersão na obra se torne mais profunda sobretudo quando Eric e Dylan entram na escola vestidos com roupas do exército e armados. Bem escrito o filme emociona e faz pensar (sobretudo depois do massacre ocorrido no Rio de Janeiro) sobre as relações interpessoais que podem deteriorar  pessoas  de uma forma tão abrupta que para expressar seu sofrimento tais pessoas acabem pegando em armas e destruindo muitas outras vidas.